Wednesday, June 08, 2005

o avesso

[Da correspondência pessoal de Charity Schuck para Bernard Ossiam-Smithee:]

Dear,

(Das palavras da doce Carolina roubo estas linhas)

Sempre chega a hora da solidão.

Sempre chega a hora de arrumar o armário. Sempre chega a hora do poeta a plêiade. Sempre chega a hora em que o camelo tem sede.

O tempo passa e engraxa a gastura do sapato; na pressa a gente não nota que a lua muda de formato. Pessoas passam por mim pra pegar o metrô. Confundo a vida ser um longa metragem: o diretor segue o seu destino de cortar as cenas, e o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos, e já não vai ao cinema.

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você.

Penso quando você partiu assim, sem olhar pra trás, como um navio que vai ao longe e já nem se lembra do cais. Os carros na minha frente vão indo e nunca sei pra onde - será que é lá que você se esconde? Tudo passa e eu ainda ando pensando em você.

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você.

A idade aponta na falha dos cabelos. Outro mês aponta na folha do calendário... As senhora vão trocando o vestuário; as meninas viram a página do diário.

O tempo faz tudo valer a pena; e nem o erro é desperdício.

Tudo cresce e o início deixa de ser início, e vai chegando ao meio, e aí começo a pensar que nada tem fim.

Que nada tem fim.

Cheerfully,

Charity

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Sunday, June 05, 2005

time to turn it around

[Da correspondência pessoal de Bernard Ossiam-Smithee para Charity Schuck:]

Sweet Charity

Estou num momento da minha vida em que eu poderia ser qualquer coisa, qualquer pessoa, qualquer personagem, fosse de Pirandello ou Fellini. Me diverte poder ser até mesmo um copycat de mim mesmo, um simulacro de pessoa, construído detalhe a detalhe como Kevin Spacey em "The Usual Suspects". Parece haver uma folha em branco em meu passado. Caio Fernando disse certa vez que "essa morte constante das coisas é o que mais dói". A mim, não: há um certo reconforto em ser vazio, em ser nada para poder virar tudo, virar qualquer coisa.

Ironicamente, essa liberdade advinda do poder de escolha guarda em si a semente de sua antítese. Posso tomar qualquer caminho, mas a liberdade só se realizará plenamente quando eu fizer a escolha, e ao fazê-la, deixarei um pouco de ser livre. Na essência de minha liberdade reside seu próprio algoz.

Penso nisso e em outras coisas que me escapam enquanto dirijo pela cidade sob os auspícios da madrugada. A primavera aqui é fria, mais do que eu imaginava. Na proteção relativa do meu carro, seguro entre o estofado aconchegante e as luzes suaves avisando inertes o estado mecânico das coisas, penso na volatilidade do meu pensamento; em como a maior porção de tudo o que me vem à cabeça agora certamente desaparecerá no ar frio sem nunca atingir sua completude, como se nunca tivesse existido. Ou então irá para outro lugar, outras mentes, ficar pairando à espera de nova receptividade.

Em momento mais oportuno voltarei a lhe falar sobre isso. Por ora, minhas saudades.

Cheers,

B.

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Saturday, June 04, 2005

actual condition

[Da correspondência pessoal de Bernard Ossiam-Smithee para Charity Schuck:]

'Dog carcass in alley this morning'. Na verdade, era de madrugada, meu apêndice não oficial de fim de noite - pés doendo e cabeça quase leve em frente ao jornaleiro à procura de alívio para levar para casa. Lembrei do que me disse sobre a mulher no retrovisor, sobre estranheza e tudo mais.

Encosto próximo ao meio fio palmos atrás de um 307 hatchback cinza ferro de aparência gasta, a janela aberta com um cotovelo e uma cabeça se esgueirando para fora. Uma rosácea de cerveja e bílis decora o asfalto imedatamente abaixo à janela, o rastro amarelo e azedo escorrendo em filete até encontrar apoio no quebra-molas metro e meio à frente.

Fiquei tentado a bater uma foto do sonolento beberrão em estado frágil, dormindo desajeitadamente sobre o vidro arriado, mas a Canon com pilhas já gastas no porta-malas trancado do carro pareceu-me longe demais àquela hora da madrugada. Uma pena.

See ya,

B.

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Thursday, June 02, 2005

mirrorback

[De um e-mail de Charity Schuck para Bernard Ossiam-Smithee:]

Faceless woman crossing my path this morning while I was on my way to the office. From the rearview mirror I could see her presence but again not he face.

While re-focusing my attention on the driveway I tried to understand wheather it was som kind of pressage or just a minor illusion brought by my state of semi-sleepness.

I would like to say something very obvious like 'life's strange, sometimes' but I'd rather keep my mouth shut.

Cheers,

Charity

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