Wednesday, September 17, 2008

Ashes of time

[Da correspondência pessoal de Bernard Ossiam-Smithee para Charity Schuck:]

Sweet Charity

Na ocasião do sepultamento, pensei nas pessoas em pé à volta da cova recém-cavada, a textura da grama, o cheiro da terra remexida. Pensei no que poderia estar passando pela cabeça de cada um ali. Pensei em tudo o que havia acontecido, e o que não0 havia acontecido, e me senti anacrônico. Pensei em cada vez que quis recuperar um tempo perdido, reviver alguma sensação que havia passado em branco.

Pensei nas festas de revival que planejei e nunca fiz, e no quão patéticas elas seriam se tivesse existido, porque não passariam de tentativas vazias de recolher de volta um tempo que fora, na verdade, mal aproveitando. Pensei em minhas pequenas obsessões, e em como me mantive preso em minha própria cabeça tantas e tantas vezes. Agora me vinha uma calma lúcida, daquelas que se tem na manhã que se segue a uma noite turbulenta, em que tudo está preciso, claro, nítido. Estava mais fácil enxergar tantas coisas que me escaparam por anos, ou das quais só vi relances em pequenos momentos de lucidez.

Houve dias em que acordar pela manhã tinha o impacto de acelerar um carro contra um muro de concreto. Me arrastava até o espelho e parecia estar sob interrogatório, a luz fluorescente na cara revelando tudo: cada poro irregular, cara imperfeição milimétrica - tudo rebatendo. Cada detalhe sórdido da personalidade, sem disfarces, sem desculpas. Ali, escondendo-se sob as olheiras da noite anterior estava o profissional relapso, o empregado procrastinador, o amigo egoísta, o namorado insosso. Autocrítica como um murro na cara.

O que mais assustava, no entanto, é que essa dose matinal de realidade vinha banhada numa calma irritantemente inabalável. O mundo havia desabado na noite anterior e tudo parecia a coisa mais tranquila do mundo. À noite, não. À noite o ar sempre esteve repleto de passionalidade. Tudo era exacerbado, único, pleno. É fácil entender o ideal boêmio, porque a Noite é inebriante, irresistivelmente inebriante. A Noite é amante da Tentação. "Deixe acontecer e eu te levo até lá". E se sou um homem santo, e me seduzo pela canção do Demônio, isso significa que ele está certo e eu, errado? A noite libertava os desejos e aprisiona as almas. E até de manhã, tudo era vívido e possível, como se nada mais importasse até o sol brilhar.

Esse contraste pendular provoca tempestades em nossas almas românticas e corações moles. O passar das horas sob a luz do sol se transfoma paulatinamente numa busca débil pelo cheiro perdido, o gosto de uma boca que foi única, a sensação de calor no peito que causa sorrisos em meio ao nada. "Amor que passa bem, com a noite encantada, mesmo que passe bem, amor e quase nada". E assim se acaba com um punhado de nada, um bom e cheio punhado de nada que não lembranças vagas e fiapos de calor pela espinha.

Nesses dias empoeirados em que já havíamos colocado as cadeiras pra cima das mesas, muitas e muitas vezes me senti só. É tarde, é muito tarde, tarde para tudo, tarde para qualquer coisa. Tarde para ter atenção, tarde para resolver o que se arrastou por tanto tempo. E ao buscar companhia dentro de minha própria cabeça tudo se transformava lentamente em ópio, cada vez mais fuga que prazer. Me refugiava para não pensar na aspereza da manhã seca e árida. Me desconstruía no andar dos dias, perdido e vazio, vendo todos à minha volta correrem de suas próprias ansiedades.

Cheers,

B.

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