Sunday, June 05, 2005

time to turn it around

[Da correspondência pessoal de Bernard Ossiam-Smithee para Charity Schuck:]

Sweet Charity

Estou num momento da minha vida em que eu poderia ser qualquer coisa, qualquer pessoa, qualquer personagem, fosse de Pirandello ou Fellini. Me diverte poder ser até mesmo um copycat de mim mesmo, um simulacro de pessoa, construído detalhe a detalhe como Kevin Spacey em "The Usual Suspects". Parece haver uma folha em branco em meu passado. Caio Fernando disse certa vez que "essa morte constante das coisas é o que mais dói". A mim, não: há um certo reconforto em ser vazio, em ser nada para poder virar tudo, virar qualquer coisa.

Ironicamente, essa liberdade advinda do poder de escolha guarda em si a semente de sua antítese. Posso tomar qualquer caminho, mas a liberdade só se realizará plenamente quando eu fizer a escolha, e ao fazê-la, deixarei um pouco de ser livre. Na essência de minha liberdade reside seu próprio algoz.

Penso nisso e em outras coisas que me escapam enquanto dirijo pela cidade sob os auspícios da madrugada. A primavera aqui é fria, mais do que eu imaginava. Na proteção relativa do meu carro, seguro entre o estofado aconchegante e as luzes suaves avisando inertes o estado mecânico das coisas, penso na volatilidade do meu pensamento; em como a maior porção de tudo o que me vem à cabeça agora certamente desaparecerá no ar frio sem nunca atingir sua completude, como se nunca tivesse existido. Ou então irá para outro lugar, outras mentes, ficar pairando à espera de nova receptividade.

Em momento mais oportuno voltarei a lhe falar sobre isso. Por ora, minhas saudades.

Cheers,

B.

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